domingo, 3 de novembro de 2013

EDUCANDÁRIO: MOBILIZAÇÃO TENTA IMPEDIR FECHAMENTO.

Por Célia Ribeiro

Quando os olhinhos assustados do menino viram a imponente construção, pela janela do ônibus que o trouxe de São Paulo, emoções desencontradas invadiram-lhe a alma. Junto com outros 40 garotos, órfãos como ele, o pequeno iniciava naquela manhã uma nova fase da sua vida no Educandário Bento de Abreu Sampaio Vidal. Passados 50 anos, Francisco Santana, professor de marcenaria, continua na entidade que luta para não fechar as portas com o apoio da Sociedade São Vicente de Paulo, da Associação dos Amigos do Educandário e de voluntários.
 
Educandário nos anos 50: obra de Bento de Abreu ameaçada
Desde sua criação, em 1957, o Educandário acolheu e cuidou de mais de 3.000 meninos formados, em sua maioria, por órfãos. Até o ano 2000, a entidade foi mantida exclusivamente pela Santa Casa de Misericórdia de Marília, explicou o diretor, Irmão Agenor Lima Rocha. Com a crise que assolou os hospitais filantrópicos, a instituição começou a receber auxílio da Prefeitura através do fornecimento de funcionários e alimentação para os cerca de 150 meninos.
 
No princípio, a entidade funcionava como orfanato.
Em 2006, com o agravamento da situação financeira, um grupo de voluntários decidiu criar a Associação dos Amigos do Educandário que realiza eventos beneficentes para apoiar a obra iniciada por Bento de Abreu. O pioneiro foi buscar no Canadá os primeiros religiosos da Congregação São Vicente de Paulo que lutam para impedir que esse importante projeto social feche as portas.
 
(Esq.) Irmão Agenor e Celso Lopes
da SSVP na reunião.
Isto porque, a partir de 2014, a Santa Casa de Misericórdia que detém a posse da imensa área em que está instalado o Educandário, pretende reaver o imóvel. Os religiosos foram comunicados da decisão. No entanto, não aceitam encerrar essa obra humanitária que deu formação a milhares de meninos órfãos e de famílias extremamente pobres.

No último dia 30 de outubro, uma reunião no refeitório da entidade representou um sopro de esperança aos presentes: Antônio Celso Lopes, presidente do Conselho Metropolitano da Sociedade São Vicente de Paulo, anunciou a disposição de a SSVP assumir o Educandário como um de suas obras unidas, a exemplo do Asilo São Vicente de Paulo.

Para tanto, serão mobilizados recursos para a construção de um novo prédio em área que se encontra em estudos, na zona sul, graças à SSVP, Associação dos Amigos do Educandário e voluntários da comunidade. “O que precisamos é de mais prazo para desocuparmos as instalações atuais. Se em 2014 a Santa Casa autorizar nosso funcionamento, ao fim do ano que vem teremos condições de mudarmos para novo prédio e mantermos o atendimento aos meninos”, assinalou o Irmão Agenor.
 
Futebol no campinho da entidade 
COMOÇÃO

Na reunião da semana passada, com a presença do promotor Isauro Pigozi, dos vereadores Cícero do Ceasa e delegado Wilson Damasceno, vicentinos, empresários, voluntários e religiosos, o clima era de comoção. Todos que usaram a palavra apresentaram sugestões para enfrentamento do problema visando impedir o fim do Educandário. “Cuidamos daqui durante 55 anos e agora estamos perdendo nossa casa”, desabafou, desolado, o diretor da instituição.
 
Vereadores Cícero e Delegado Damasceno foram à reunião
Sensibilizado com a situação, Antônio Celso Lopes anunciou que apresentaria a proposta para que a SSVP assumisse o Educandário como uma de suas obras unidas, três dias depois, na Conferência Nacional que seria realizada em Brasília. A resposta positiva foi recebida com muitas orações pelo Irmão Agenor que revelou a aprovação da proposta, em primeira mão, ao blog “Marília Sustentável” na tarde deste domingo (03/11).
 
À direita, o Dr. Antonio Domingues, presidente da
Associação dos Amigos do Educandário.
Ele disse que a corrida contra o relógio já começou. Na próxima semana haverá reunião com os pais. Como estava tudo caminhando para o encerramento das atividades, as crianças seriam distribuídas para outras entidades da cidade. O fato novo gerado pela SSVP muda a situação e a luta será por garantir a matrícula em 2014, nas mesmas instalações, desde que a Santa Casa autorize novo prazo e a Prefeitura mantenha o mínimo de funcionários e a alimentação.

TRABALHO EXEMPLAR
 
Criança recebe atendimento odontológico nos anos 50.
As 137 crianças de 5 a 16 anos chegam de ônibus ao Educandário logo cedo. Tomam café da manhã, realizam tarefa escolar com monitoramento de professoras, fazem um lanche, participam de atividades esportivas, tomam banho, almoçam e vão para a escola. Depois da aula seguem para casa, também com o transporte escolar.
 
Familiares participam das festividades
Anteriormente, além de 150 meninos, havia 30 adolescentes em cursos de panificação e marcenaria, no período da tarde. Mas, com as mudanças, eles foram dispensados. “Passaram pelo Educandário mais de 3000 meninos. Em quase 60 anos nunca houve uma denúncia, um problema de violência ou maus tratos contra as crianças. Aqui eles sempre receberam orientação, formação, alimentação e carinho”, observou o diretor da entidade.
 
Desde 1957, mais de 3000 meninos passaram pelo Educandário.
O desafio de dar prosseguimento à obra sonhada por Bento de Abreu, ainda que com outra denominação, é o que move um grande número de apoiadores. Agenor Lima agradeceu aos vereadores Wilson Damasceno e Cícero do Ceasa, presentes à reunião decisiva. “Antes de ser vereador, Damasceno sempre nos ajudava pelo Rotary. O Cícero, também, muitas vezes vinha trazer verduras da horta comunitária da zona norte. Agora, esperamos contar com o presidente da Câmara, Dr. Nardi, que nos ajudou na reforma da marcenaria, para mantermos o Educandário de pé, intercedendo por nós junto à Santa Casa e à Prefeitura”, finalizou.


Obs: As fotos da entidade são de arquivo do Educandário.

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