domingo, 16 de setembro de 2012

DA INFÂNCIA DE PÉ NO CHÃO, ARTISTA CRESCEU RESPEITANDO A NATUREZA E DANDO VIDA AOS MATERIAIS INSERVÍVEIS.

Por Célia Ribeiro

Quando o sol derrama seus primeiros raios sobre o vale, acompanhado de uma brisa fresca, que despenteia as folhas das árvores, os privilegiados moradores da tranquila Rua João Sampaio Goes, no Jardim Acapulco, são brindados com uma experiência sensorial única. O clima bucólico, que encanta os visitantes, também inspira uma artista da terra que escolheu o lugar para viver e reproduzir o ambiente da infância, de pé no chão e cumplicidade com a natureza.

Belinha e um dos quadros favoritos
Formada em design de interiores pelo Univem, Izabel Cirillo, viúva e mãe de duas filhas, nasceu talentosa. Aos 12 anos teve o primeiro contato com os trabalhos manuais ainda na fazenda em que vivia com a família: “Não tínhamos muitos brinquedos. A gente ia para o milharal e fazia boneca de espiga de milho, com roupinhas e tudo mais. Os carrinhos dos meus irmãos eram feitos de pedaços de madeira com rodas de carretel de linha”, divertiu-se contando como foi o despertar de seu interesse pelo artesanato.

Duplo aproveitamento: resto de madeira no vaso
 e cacos de azulejos no tampo da mesa
Estilista e costureira das mais criativas, Belinha, como é chamada pelos amigos e clientes, costurou e deu aula de corte e costura por muitos anos. Mas, inquieta, sempre gostou de ousar criando objetos com coisas que seriam descartadas. Há mais de 30 anos, por exemplo, ela pintou alguns blocos de concreto e caixotes de madeira para confeccionar uma prateleira para o quarto da filha mais velha, hoje com 38 anos. “Nem imaginava que um dia os caixotes virariam moda. Lá ficavam os brinquedinhos da minha filha”, recordou com uma ponta de saudade.

Garrafas de vidro pintadas usam tampas originais: restos de
acabamento, como pastilhas, e até papel machê.
Morando numa casa espaçosa com muitas plantas e flores, Belinha extrai da natureza a energia que a inspira na criação de peças originais: garrafas de vidro são pintadas e adornadas com tampas feitas com sobras de acabamento da construção civil, como pastilhas, ou com papel machê a partir de jornais e revistas velhos; garrafas PET são aproveitadas para o plantio de temperos e formam divisórias de ambiente; os pneus das brincadeiras de infância ganharam cores vibrantes e abrigam florzinhas coloridas no jardim.

Borra de café forma o rosto da mulher no quadro em que
até o filtro de papel usado é aproveitado
Os quadros são uma paixão da artista. E matéria prima não é problema: borra de café e filtro de papel usado formam belas imagens, cacos de vidro e espelho se transformam em detalhes preciosos que dão um charme aos trabalhos. “Não jogo nada fora. Nem um cabo de vassoura”, revelou Belinha, explicando que procura “dar bom uso a tudo. Se vejo uma sobra de madeira de construção, por exemplo, logo penso o que poderia fazer com aquilo e a ideia surge”.

PASISAGISMO

Izabel Cirillo passou boa parte da infância numa fazenda em Garça. De pé no chão, brincando com os irmãos, ela conserva doces lembranças. Acostumada a aproveitar qualquer coisa que tivesse à mão, ela não conseguiu frear a veia artística. Assim, da costura passou aos trabalhos manuais e sua experiência com as plantas e o artesanato formaram o casamento perfeito para os projetos de paisagismo que fazem muito sucesso.
Garrafas PET para cultivo de
temperos variados
“Quando me procuram, eu vou ao local para conhecer as expectativas do cliente. Se ele me der carta branca e me deixar à vontade para usar os recicláveis, vou fazer o projeto usando tudo o que tenho à mão, deixando a imaginação fluir”, comentou. Ela citou o exemplo da Clínica de Fisioterapia Estética e Pilates “Camomila Medeiros”, na Rua Rio Grande do Sul. A pequena garagem se transformou num jardim interno onde foram aproveitados desde estrados de cama antiga para fixação de vasos, batentes de porta, troncos e cascas de árvores, cacos de espelho, retalhos para um tapetinho e até quadros de madeira usados em estamparia.

Flores e pneus dão colorido
ao jardim da casa
Adorei o resultado e minhas clientes também. Elas se sentem acolhidas, ficam mais relaxadas e esquecem os problemas” afirmou a fisioterapeuta e instrutora de Pilates, Camomila Medeiros. Ela já utilizava vários caixotes reciclados na clínica e aprovou as soluções criativas da Belinha.

Na antiga garagem, restos de madeira, casca de árvores, cacos de espelho,
estrados de cama e retalhos de tecidos do tapete: 100% reaproveitados.
“Na clínica da Camomila nada foi comprado. É 100% material que seria jogado fora e que reaproveitamos”, disse a artista. Segundo ela, “todo mundo pode ter um ambiente bonito e agradável a partir de recicláveis, apenas soltando a imaginação sem preconceito”. Ela contou que resolveu fazer faculdade há apenas sete anos e que o curso de Design de Interiores do Univem deu mais abertura ao seu processo criativo: “Estou trabalhando no que eu gosto e que me dá muito prazer”.
Camomila aprovou as ideias

 HORTA COMUNITÁRIA

Do interior da casa espaçosa, que transpira arte em cada canto, tem-se uma visão do vale de tirar o fôlego. Mas, nem sempre foi assim. Há alguns meses, do outro lado da rua havia muito mato, sujeira e entulho. Foi quando, conversando com seu jardineiro, Belinha disse que gostaria de formar uma horta orgânica.

Tendo o vale ao fundo, a horta comunitária
 começou a produzir
Assim nasceu a horta comunitária, do outro lado da rua, que tem atraído a atenção de quem passa pelo lugar. Aproveitando uma equipe da Prefeitura que fazia limpeza de terrenos no bairro, Belinha procurou o encarregado e pediu para limparem o local, consultando-o sobre a possibilidade de fazer uma horta e preservar a área pública. Em poucos dias ela e o jardineiro Donizete já estavam trabalhando a terra que retribui tanto carinho oferecendo legumes e verduras fresquinhos.

A rua tranquila começa a atrair a atenção
“Um vizinho chega aqui com uma semente, outra vizinha já veio pegar cheiro-verde e já comemos pés de alface gigantes, fresquinhos e orgânicos”, comentou toda feliz. Para adubar a terra, eles aproveitam o esterco do pasto em frente e cascas de legumes, verduras e frutas que Belinha coloca para secar. Nem isso é jogado fora! “Temos composto orgânico, sem química, e as verduras crescem que é uma beleza”, assinalou.

Na área pública, cercada para evitar a invasão de animais, mas aberta aos moradores do entorno, além da horta orgânica, Belinha e seu jardineiro plantaram mudas de árvores (Ipê e Pau-Brasil) e se preparam para ampliar o espaço verde. “Notamos que o lugar está chamando a atenção. Os vizinhos que nem desciam aqui embaixo agora passam a pé, olhando a horta”, observou, citando que a produção está se diversificando a cada dia: salsinha, cebolinha, alface, couve, jiló, rúcula, alface, almeirão e hortelã ganharão, em breve, a companhia das mudas de berinjela, cenoura, repolho etc. “Em menos de dois meses já mudamos este lugar. Dá para fazer muito mais”, finalizou a artista que tem beleza até no nome.

Para entrar em contato com a Belinha, o email é: izabelcirillo@hotmail.com e os telefones: (14) 34132844 e 81504826.

* Reportagem publicada na edição de 16.09.2012 do Correio Mariliense

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