domingo, 4 de março de 2012

HORTA COMUNITÁRIA DA ZONA OESTE DE MARÍLIA RESISTE COM O SUOR DE POUCAS FAMÍLIAS

Por Célia Ribeiro

Num dos pontos mais altos da zona oeste de Marília, quando o sol começa a se despedir, um véu delicado de gotículas de água se espalha nos vigorosos canteiros de hortaliças e legumes graças à engenhosidade de um modesto sistema de irrigação. Se não fosse por ele, o projeto comunitário, idealizado pela artista plástica Márcia Zaros no terreno anexo ao Poliesportivo Américo Capellozza, já teria sucumbido a exemplo da esperança das famílias que desistiram do sonho de revitalização do bairro.
Jaqueline Alexandre
O projeto “Bairro Vivo”, que chegou a contar com 30 famílias de trabalhadores, hoje patina para sobreviver com apenas oito famílias. Elas resistem, enfrentando as jornadas sob sol escaldante, para trabalharem a terra onde cultivam todo tipo de verduras e legumes, além de plantas medicinais.

Dona Nilza e os frutos do trabalho
Desde a última reportagem do Correio Mariliense, um ano atrás, ao invés de melhorar, a situação só piora a cada dia. A notícia de que a Prefeitura construiria um barracão para acomodar a cozinha comunitária, o depósito de ferramentas e insumos, além de sanitários, deu novo ânimo aos moradores, conta Márcia Zaros.

No entanto, devido às dificuldades financeiras alegadas pela administração, até agora a ideia está no papel: “Só temos o apoio da Secretaria da Agricultura que nunca nos abandonou”, observou a líder comunitária. Por isso, o plano de desenvolvimento de oficina de sabonete vegan, que tem muita procura e ótimos preços, a produção de sabão artesanal e doce à base de frutas, além do fornecimento de sopão aos moradores, são apenas sonhos que se esvaem a cada amanhecer.

Márcia Zaros
“Não temos as mínimas condições. Não temos onde guardar as ferramentas e quando deixamos na horta, elas são roubadas. Não temos banheiro, nem um quiosque com sombra pra gente tomar água e descansar”, resume Márcia Zaros. Ela conta, com tristeza, que os voluntários da hora comunitária trabalharam duro para produzirem e venderem legumes e hortaliças juntando dinheiro necessário à compra de um pulverizador. Em pouco tempo o equipamento, de grande utilidade, foi furtado para decepção geral.

ECONOMIA NO BOLSO

Márcia Zaros se abastece de otimismo no contato com os voluntários que se dedicam à horta. Eles se revezam no plantio, na remoção de ervas daninhas, e na manutenção dos canteiros e colheita. Duas vezes por semana, cada uma das oito famílias leva sacolas cheias de tudo o que ajudaram a plantar: alface, almeirão, couve, quiabo, cenoura, beterraba, tomate, mandioca, berinjela, pimenta, pimentão, abobrinha, abóbora, milho, salsa, cebolinha etc.

Legumes e verduras à vontade para as famílias
“Quem trabalha na horta tem a gaveta da geladeira cheia do que tem aqui. Um voluntário que tinha saído pediu para voltar porque sentiu no bolso o custo desses alimentos que ele tem de graça na horta”, contou a líder comunitária. Segundo disse, “muita gente vem aqui e fica encantada com esse trabalho. Mas, não conseguimos ajuda, até agora, para termos nosso espaço. Acho que temos que trabalhar mais duro ainda, aumentar a produção, vender e juntar dinheiro para construirmos sozinhos. O difícil é que tudo custa muito caro”, lamentou.

 MÃOS À OBRA

Na tarde da última quinta-feira, a sorridente jovem Jaqueline Fernanda da Silva Alexandre estava ajudando na formação de novos canteiros. Casada, aos 20 anos, disse que enquanto não começar no novo emprego aparece para ajudar na horta e, claro, levar sua parte dos legumes e verduras orgânicos produzidos no local.
Sr. Mário, vitalidade aos 82 anos
Ao seu lado, a viúva Nilza Maria de Lima Cassoli, 63 anos, se protegia do sol com chapéu e luva mostrando grande habilidade no trato da terra: “Quando eu era criança morava na roça. Adoro plantar e colher. Por mim, isso aqui estava cheio de gente trabalhando”, disse.

Enquanto isso, o mais antigo ajudante da horta, “Seu” Mário esbanjava vitalidade aos 82 anos. De enxada na mão, Márcia disse que ele era o guardião dos canteiros porque sua tarefa era livrar as plantas das ervas daninhas. Pai de nove filhos, o aposentado entende de fertilidade e, muito simpático, não parava um minuto, nem para dar entrevista.

ESPERANÇA

Márcia Zaros não se esquece de agradecer a algumas pessoas que têm colaborado com o projeto. Ela citou o “Carlão do Mercadinho”, de quem não recordava o sobrenome, mas disse ser bem conhecido por todos: “Sempre que quebra alguma ferramenta ou falta alguma coisa, o Carlão é quem nos socorre. Ele compra nossa produção excedente e assim podemos continuar nosso trabalho”.

Irrigação salvadora
No caso da irrigação, Márcia pesquisou alternativas na internet e foi em busca de ajuda. Do secretário de Serviços Urbanos, José Expedito Capacete, conseguiu a doação de uma caixa d’água de 3.000 litros: “Foi uma doação pessoal que ele nos fez, do próprio bolso”, ressaltou. O sistema que leva água e evita que os voluntários fiquem até três horas sob sol forte foi providenciado com a ajuda, pra variar, do “Carlão do Mercadinho”.

A irrigação deu à horta comunitária um suspiro de vida que, apesar de pequeno, tem sido suficiente para manter unidas as famílias que acreditam ser possível transformar a realidade em que vivem a partir da união e do trabalho. De muito trabalho digno.

Para conhecer o projeto, acesse o blog: www.projetobairrovivo.blogspot.com

* Reportagem publicada na edição de 04.03.2012 do Correio Mariliense

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