domingo, 4 de dezembro de 2011

MÃES DE CRIANÇAS COM CÂNCER SE UNEM NAS TARDES DE ARTESANATO DO GAACH

Por Célia Ribeiro

Se cair um fio de lã no chão, vira arte. Nada é desperdiçado e qualquer sobra de material ou embalagens descartadas ganham nova vida em objetos criativos com acabamento impecável. O diferencial é que, antes de gerarem renda para as famílias, as tardes de terça-feira funcionam como um elixir de esperança, unindo as mães que têm filhos com câncer e hemopatias (doenças do sangue).
Clima natalino encanta as crianças

A casa ampla e arejada, “melhor que casa de mãe e casa de sogra”, na avaliação bem humorada da ceramista Silza Más Rosa, fica na Rua Alfeu Cezar Pedrosa, 63 (em frente à escola Orbe). É a sede do GAACH (Grupo de Apoio à Criança com Câncer e Hemopatias), entidade filantrópica que, desde 2.003, tornou-se um porto seguro para famílias que vêm a Marília para o tratamento oncológico e de doenças como anemia falciforme, hemofilia etc.

Criada por um grupo de voluntários que se sensibilizaram com a causa, o GAACH é presidido pela médica oncopediatra e atual diretora do Hemocentro de Marília, Dra. Doralice Marvule Tam. São 47 voluntárias que se revezam nas manhãs e tardes, e ainda realizam atividades para arrecadação de recursos como bazares, bingos mensais e venda de artesanato.

Mães aprendem artesanato às terças-feiras
Atualmente, 170 crianças estão cadastradas e 30 famílias são assistidas com uma cesta básica todo mês. Sem subvenções oficiais, contando apenas com a ajuda da Prefeitura para o pagamento de uma parte do aluguel do imóvel, o GAACH sobrevive da motivação de suas voluntárias que têm um talento incrível para descobrirem novas fontes de renda.

Silza Más Rosa
Um exemplo é a cozinha: “Lá dentro é que estão as talentosas”, avisa Silza Más Rosa, a artesã que transforma em alegria as tardes de terça-feira com as aulas para as mães. Na última quarta-feira, o movimento lembrava uma cozinha industrial. O aroma dos temperos chegava à calçada avisando que, dali a pouco, sairiam as primeiras guloseimas.

Para se ter uma ideia, a cada semana, as voluntárias produzem cerca de 50 tortas de frango e palmito. Com preço acessível (20 reais a unidade que pesa quase 1,5kg) e bem recheadas, as tortas caíram no gosto da vizinhança. “Só o pessoal da Fiat Ogata encomenda 20 tortas de uma vez. Os funcionários da Receita Federal compram mais de 20 bolos de cenoura com cobertura de chocolate e saem uns 60 pães toda semana”, revela a tesoureira Maria Angélica Viana.

 CAMA, MESA E BANHO

As voluntárias precisam ser criativas. É que para manter o atendimento no GAACH os custos não são pequenos. No abrigo, tem almoço todo dia. O pessoal vai chegando e se acomodando sem cerimônia. Ao invés de ficarem pelas imediações do HC e Hemocentro, famílias inteiras são acolhidas no GAACH onde há acomodações para pernoite. Depois, a condução passa lá para leva-las às cidades de origem.
Voluntárias do GAACH
“Tem família que dorme uma noite, outras que passam uma semana, um mês e até mais de ano, num vai e vem de internações”, explica a tesoureira. Para contribuir na manutenção da entidade, as voluntárias contam com o coração generoso da população. Cerca de 90 por cento do custeio da casa são provenientes de doações da comunidade.

Pode-se doar tudo: alimentos, materiais de limpeza, leite, complemento alimentar (Sustagen), fraldas descartáveis, etc. Mas, as pessoas também podem contribuir comprando as delícias culinárias (tortas, bolos, pães, esfirras, bolachinha de nata, palitinho de pimenta), bem como as lindas peças de artesanato confeccionadas pelas voluntárias ou os trabalhos das mães da oficina comandada pela artesã Silza Más Rosa. Basta telefonar para (14) 3422.4111 ou ir ao local.

Artigos natalinos para presentear

Segundo a tesoureira, a entidade recebe “qualquer doação, tudo o que tem numa casa e também roupas”. Ela citou que uma grande ajuda vem da Escola Realize. Duas vezes por ano, no ato da matrícula, os pais que levarem uma lata de Sustagen recebem desconto no preço. A

Cada semestre, cerca de 100 latas do complemento alimentar reforçam o estoque do GAACH que distribui às famílias carentes cujos filhos estejam em tratamento.

Casal de Ribeirão do Sul chegou para almoçar
Para o casal Eloir e Lucilene Pereira Manzano, de Ribeirão do Sul (região de Ourinhos), que quarta-feira foi almoçar levando o bebê de um ano e oito meses, que está em tratamento no HC, o GAACH representou uma pausa para descanso. “Ouvi falar muito bem e resolvi vir conhecer”, disse, olhando a mesa posta e o almoço quentinho sendo servido sem cerimônia.

ARTESANATO TERAPÊUTICO

Silza Más Rosa é daquelas figuras que as pessoas ficam pensando: “Como vivi até hoje sem conhecê-la?” Com uma energia incrível, ela é a motivação em pessoa. Por isso não surpreende que quando a artista levou uma doação à entidade, cinco anos atrás, encantou-se pela instituição e resolveu ficar.

 Com uma alegria contagiante, Silza comanda a oficina de artesanato para as mães onde as crianças também podem participar. De artigos natalinos, objetos de decoração, sacolas retornáveis, tapetes e tudo o que imaginação alcançar, tudo pode ser criado a partir de materiais inusitados.

Caixas de pizza ganham revestimento especial e com sementes colhidas no bosque viram lindas mandalas. Vasinhos de plástico são lixados, pintados, recebem flores de tecido e depois de aromatizadas enfeitam e perfumam os lavabos. Sobras de tecido se transformam em lindos saquinhos de lixo para carro, duas bandejas de isopor forradas com filtro de café usado são modernos porta-retratos.

Neusa, orgulhosa do seu trabalho
 “Quando cheguei aqui, esse projeto já existia. Eu me ofereci para trabalhar junto, dando aulas de artesanato. Comecei a ver uma possibilidade, não apenas uma fonte de renda porque ninguém ganha tanto com artesanato, o material é caro e o tempo aqui é curto. Mas, é uma maneira de reuni-las, de estar passando valores, informações, de elas estarem ocupadas. É uma terapia em grupo”, avalia a artesã.

“Elas encontram seus pares. Começam a perceber que outras pessoas têm os mesmos problemas. E isso acaba dando força. Tudo o que é feito em grupo tem muito mais peso”, acrescenta a tesoureira Angélica Viana. Já Silza Más Rosa ressalva que “algumas pessoas têm dificuldade no artesanato, enquanto outras deslancham. Então, nisso eu vi a possibilidade de ensinar solidariedade porque todo mundo pode doar alguma coisa”.
Os maiores ganhos dessa atividade são invisíveis aos olhos, mas tocam o coração: “No começo eu tinha que pedir para uma ajudar a outra. Hoje, não preciso mais, virou uma grande família. Tem uma batizando o filho da outra, uma mãe visitando o filho doente da outra. Aqui é um lugar de alegria”, afirma Silza, complementando: “Ninguém fala de doença. O tempo é de Deus”.O que torna o GAACH tão especial, além de todo o suporte às famílias fragilizadas, é que mesmo as mães que perderam seus filhos continuam sendo apoiadas. Algumas ainda frequentam as aulas de artesanato e apoiam as outras, num ciclo de amor e solidariedade.

PARA AJUDAR

Para ajudar o GAACH, a população pode ir à sede na Rua Alfeu Cezar Pedrosa, 63 (em frente á Orbe), no bairro Fragata ou ligar para (14) 34224111 e fazer encomendas de tortas, salgados, pães, bolos, petiscos etc. Outra opção é comprar o artesanato para presentear neste Natal. Há lindas peças confeccionadas pelas voluntárias cuja renda vai para a entidade. Também tem trabalhos das mães e, neste caso, a renda vai para as famílias. Uma boa dica de presente com uma energia toda especial.


* Reportagem publicada na edição de 04.12.2011 do Correio Mariliense















Um comentário:

  1. Fantástico o trabalho do GAACH ! Estive lá na exposição de Natal e realmente todos os trabalhos, executados pelas mães, sob o comando da Silza, estavam maravilhosos!!! Difícil escolher... Os quitutes também agradam muuiiiito !! Parabéns pela matéria ! Parabéns a todos os envolvidos nesse trabalho de amor e solidariedade!

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