domingo, 26 de junho de 2011

ATRAÍDOS PELA HORTA COMUNITÁRIA, MORADORES DE BAIXA RENDA SE UNEM PARA TRANSFORMAR O BAIRRO

Por Célia Ribeiro

Girassois integrados à paisagem
A paisagem bucólica do gado pastando tranquilamente numa grande área verde, a menos de 15 minutos do centro de Marília, lembra as pequenas cidades de antigamente. Mas, esse cenário que passa despercebido para a maioria das pessoas encantou uma jovem senhora que viu ali mais que um lugar pitoresco. Ela sonhou transformar aquele pedaço de chão em algo que unisse os vizinhos, resgatasse a autoestima coletiva e, de quebra, servisse para melhorar a qualidade de vida no entorno.

E foi assim, pela determinação de quem viu além do alcance, que germinou um dos mais belos projetos sociais da zona oeste: a horta comunitária instalada em 6.000 metros quadrados do abandonado Poliesportivo Américo Capeloza. Para conhecer essa história, o “Correio Mariliense” ouviu sua idealizadora, a ex-estudante de Psicologia, designer de móveis e artista plástica Márcia Zaros.

Márcia exibe os rabanetes orgânicos
“Sou autodidata em quase tudo o que eu sei”, começou a contar, recordando o início de tudo: “Comecei a me interessar pela questão ambiental porque já reciclava lixo em casa e estava trabalhando com fitocosméticos artesanalmente”. Usando a internet, ela realizou uma vasta pesquisa sobre projetos sociais ligados à saúde e à preservação ambiental quando teve a ideia de reunir os moradores da vizinhança e lhes propor um desafio.

“Muita gente critica, mas poucas pessoas se dispõem a fazer alguma coisa para mudar aquele estado de coisas”, comentou Márcia, assinalando que não se conformava em ver aquela imensa área pública abandonada. No antigo salão comunitário do poliesportivo funciona, provisoriamente, uma unidade da Casa do Pequeno Cidadão, mas o resto do local estava tomado pelo mato e sem uso pela população dos bairros Vila Jardim, IV Centenário, São João, Fontaneli e Alto Cafezal.
Paisagem rural a 15 minutos do centro

Deixando o conforto da casa que divide com o marido e dois filhos universitários, Márcia Zaros arregaçou as mangas e bateu de porta em porta convidando os vizinhos para uma reunião: “Não nos emprestaram nem o salão. Fizemos a primeira reunião no escuro, na quadra esportiva. Disseram que eu não conseguiria levar ninguém, mas apareceram 26 pessoas”, lembra radiante.

Trabalho que exige dedicação

Fortalecida ao ver que não estava sozinha no desejo de transformar o local, ela foi adiante. Munida do projeto “Bairro Vivo”, inicialmente desenhado para ser abraçado pela Secretaria Nacional de Economia Solidária, ela partiu para segunda etapa: foi à Secretaria Municipal do Meio Ambiente em busca de mudas de árvores para a formação de um bosque e depois, na Secretaria Municipal da Agricultura, conseguiu um importante aliado, o ex-secretário e engenheiro agrônomo Antônio Jorge Favoreto.

“Se tem uma coisa que funciona é a Secretaria da Agricultura. Pena que eles têm poucos recursos. Quando expliquei meu projeto, o secretário aprovou na mesma hora. Mandou agendar um horário com o trator para limpar o terreno, mandou examinar o solo e fazer a correção do PH com calcário e nos deu todo apoio”, afirmou a líder comunitária.

Há um ano, finalmente, nascia a primeira parte do projeto comunitário com a horta orgânica que utiliza esterco como adubo e mão-de-obra voluntária das 14 famílias que atualmente se beneficiam da proposta: cada um leva para casa, duas vezes por semana, uma sacola cheia de verduras e legumes fresquinhos. O excedente é vendido em uma banca instalada em frente ao conjunto habitacional do bairro e toda renda é reinvestida no projeto.

COLHENDO OS FRUTOS
Os excedentes são vendidos para gerar renda
Na semana passada foi realizada a segunda grande colheita. Lá são produzidos: alface, almeirão, couve, pepino, cheiro verde, coentro, rúcula, repolho, berinjela, tomate, pimentão, tubérculos (beterraba, cenoura, rabanete) 03 tipos de feijão, milho, abóbora de várias espécies, mandioca (amarela e branca), entre outros. Também há pés de limão e jabuticaba e eles esperam conseguir doações de mudas enxertadas de frutíferas que produzem mais rápido.

O trabalho é duro e exige muita determinação: “Não temos estrutura nenhuma, nem banheiro para eles usarem. Se a gente pudesse dar um lanche ou uma sopa, a gente teria muito mais pessoas participando”, afirmou Márcia Zaros. Além da falta de local, o projeto sofre com a precariedade das condições de trabalho: “Quando chove temos que sair correndo por medo dos raios já que não temos onde nos abrigar”.
Márcia Zaros: concretizando um sonho

A água é outra dificuldade. A irrigação é toda manual e não há reservatório. Por isso, quando o bairro fica sem água, a horta também sofre. A líder comunitária disse que a “Prefeitura prometeu o reservatório , mas daqui a pouco começa o verão e podemos perder tudo”. Outra necessidade são os sombrites para proteção dos canteiros.

Márcia também cultiva a terra

“Fico frustrada. Essa morosidade, essa burocracia para fazer as coisas, me deixa desanimada. Não é coisa de milhões que precisamos”, disse, acrescentando que horticultores profissionais que vão visitar o projeto se surpreendem: “O que gente está fazendo, produzindo alimentos com qualidade sem ter um reservatório de água, é milagre”.

Sem nenhum vínculo partidário ou político, Márcia Zaros demonstrou preocupação com a aproximação da eleição municipal de 2.012: “Gostaria que não fossem misturados interesses políticos de ano de eleição com a urgência do básico que a gente precisa. Porque um projeto, por mais bacana que seja, ele pode morrer porque não foi socorrido a tempo. É igual doente. Se você chega lá, um mês depois que ele faleceu, levando o remédio que veio da Europa e custou um milhão de reais, adianta o que?”

VOOS MAIS ALTOS

Crianças aprendem a produzir tijolo
O projeto “Bairro Vivo” é ambicioso: a ideia é envolver a comunidade para a transformação social através da geração de renda (cursos profissionalizantes como a produção de doces e compotas, além da fabricação de sabão e sabonete vegan à base de extratos de plantas), produção de tijolos ecológicos na olaria comunitária, construção de um biodigestor para produção de gás natural etc.

Segundo Márcia Zaros, um pequeno investimento mudaria a realidade do bairro: o que precisam é a construção de uma cozinha com fogão industrial, sanitário e uma sala para os cursos . “O coração do projeto é mesmo a horta. Mas, o que vai sustentar são as oficinas”, finalizou. Para conhecer mais sobre o projeto, acesse: http://www.projetobairrovivo.blogspot.com/

* Reportagem publicada na edição de 26.06.2011 do "Correio Mariliense"

Um comentário:

  1. Amei! O mundo precisa de muitas pessoas como essas, e de muitas outras que divulguem a idéia como você!
    Bjs

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